Sem dramas, sem choros, sem melancolia. Me deu uma saudade absurda de você.
Me agarrei em mim como quem protege um filho de si mesmo. Eu queria me abraçar se pudesse, inteira. Eu precisava sentir minha companhia para resgatar aquela menina que havia adormecido aqui dentro. Chamá-la pelo nome. Passear de mãos. Reencontrar meu passado. Visitá-lo. Eu e ela. Uma só.
Depois de um tempo, compreendi com mais clareza que, quando o amor abre brechas para indícios de um fim, há que se conviver (uns por pouco tempo; outros por uma vida) com o luto, com o ‘não mais dividir’, o ‘não mais ligar’, o ‘não mais ser’, do outro. Solidão de dois.
O laço havia de ser rompido. E assim o fizemos.
Despedaçamos um ao outro. Arriscamos o abandono do nosso jardim de certezas, jardim de risadas, de mimos. Tão nossos. Sim, eu e aquele moço tivemos muitos. De todos os timbres. De todos os jeitos. Caras e bocas. Éramos festa. Fazíamos uma, juntos.
Ele, que me possibilitou experimentar a alegria que é ser amada. E como eu fui. E como eu sorri, gritei, amei, dancei, corri, brinquei na praia e na chuva. Doei-me. Doeu.
Naquela noite, a armadura tão bem escolhida por mim, se desfez nas suas primeiras palavras. Me desmontei como quebra-cabeça, assim que você lembrou, com voz de veludo, do nosso início. Quando ouvi de você a nossa história.
Eu, personagem daquele texto narrado. Mesmo no fim. Nós ainda éramos um do outro.
Nosso perdão estava sendo selado.
Num misto de felicidade e tristeza incontida. Eu estava só, mesmo quando acompanhada de lembranças, do choro e de um freqüente soluço. Foram detalhes ímpares que você fez questão de ressaltar.
Eu estava num grau de sensibilidade constatada, lavada, confortada pelo teu braço. Tênue. Eu estava plena naquele entardecer. Visível aos olhos dos que chegavam. Dos que partiam naquela estação.
Mesmo que nossas vidas tenham vestido rumos opostos, ficou o que tivemos. E isso a gente leva na bagagem. E eu trouxe. Pra vida de outras pessoas, pra história de outras pessoas, nas conversas com outras pessoas, era seu nome que subitamente eu pronunciava e era da nossa história que eu lembrava.
Era como se isso amortecesse alguma coisa aqui dentro. Amigas me ajudaram a superar o estrago formado em mim. Elas queriam me reconciliar comigo mesma.
Minhas amigas tiveram mais que uma parcela, elas integraram pedaço pós-pedaço. Elas foram às palavras que eu precisava ouvir, elas foram os abraços que eu precisava sentir, elas foram as músicas que eu precisava me permitir ouvir sem me doer. Elas foram meu silêncio, minhas fossas, minhas crises, meu isolamento, por vezes ininterrupto. Elas foram a melhor compreensão que eu poderia descrever.
Elas ainda são tudo o que tenho. Tudo o que eu sempre quero ter.
E é por mim que hoje escrevo. Eu precisava libertar a parte tua que estava comigo. A parte que não existe mais. A mesma que a distância diluiu.
Se até hoje eu te lembro, te falo, e te sinto, confesso: eu ainda te encontro em algumas canções, em algumas fotos. É fato. Eu fiquei com um pedaço da parte tua, por que foi minha um dia a parte inteira. Nada mais justo. Eu ainda me vejo naquele filme, correndo, brincando, sorrindo e sendo feliz na praia, na areia, no mar, mas a imensidão que se tornou essa distância, não há tempo que possa resgatar. Agora. Aqui. Não mais. Hoje, meu tempo é outro.

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